Boreout: quando o problema não é trabalhar demais, mas de menos

Boreout: quando o problema não é trabalhar demais, mas de menos

Carreira

Todo mundo já ouviu falar de burnout. Trabalho demais, prazo em cima, esgotamento. É um termo que virou senso comum, e com razão: é real, é sério, e é comum demais na nossa área.

Mas tem um outro lado que quase ninguém nomeia: o boreout. E foi nele que eu passei quase um ano da minha carreira sem entender direito o que estava acontecendo comigo.

O que é boreout?

Boreout é o oposto do burnout na causa, mas parecido no efeito: em vez de excesso de trabalho, é falta de desafio. Falta de propósito. A sensação de que você poderia estar entregando muito mais do que está entregando, e ninguém, nem a empresa, nem você mesmo, está deixando isso acontecer.

Não é preguiça. Não é falta de vontade. É estar num ambiente que não te desafia, fazendo tarefas que você já domina de olhos fechados, sem espaço pra crescer. Se quiser entender melhor as causas e como evitar, esse artigo do Diário do Comércio explica bem o conceito.

Como foi pra mim

O dia a dia virou um loop: eu era a pessoa que todo mundo procurava, resolvendo os mesmos tipos de problemas repetidamente. Não porque eu não soubesse fazer mais, mas porque simplesmente não surgia nada novo pra resolver.

E eu sou o tipo de dev que gosta de desafio. Não desafio por status, mas desafio que te faz crescer tecnicamente, que te tira do automático. Sem isso, eu sentia que não estava evoluindo, nem como profissional, nem dentro da própria empresa.

O resultado veio devagar: perda de propósito, cansaço que não batia com a carga de trabalho (porque não tinha carga, tinha repetição), e um tédio constante que eu demorei a associar à causa certa. Vieram junto sintomas físicos que eu não esperava: dor de cabeça frequente, dor muscular sem motivo aparente, e uma irritabilidade que não combinava comigo.

Pra complicar, isso ainda se misturou com sintomas de burnout. Houve várias situações em que se acumulou uma quantidade grande de tarefas em cima de mim, nem sempre desafiadoras, só numerosas. Ou seja: eu estava, ao mesmo tempo, entediado pela falta de desafio real e sobrecarregado por volume de tarefas rasas. Boreout e burnout não são mutuamente exclusivos. Dá pra sentir os dois ao mesmo tempo, por motivos diferentes.

Foi nesse ponto que eu busquei ajuda em duas frentes: pedir direção ao Senhor, já que sou cristão, e também fazer terapia. E preciso ser sincero: as duas coisas juntas ajudaram muito, mesmo antes de eu conseguir mudar qualquer coisa no trabalho em si. Só de entender o que estava acontecendo comigo, e de buscar direção pra isso, já mudou a forma como eu lidava com tudo no dia a dia.

O que a fé e a terapia me ajudaram a ver

A primeira foi confiar no Senhor e saber que Ele estava comigo, mesmo naquele momento de estagnação. Passei a lembrar que trabalho não é só pra empresa, nem pra ser notado por alguém: “Tudo o quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens, sabendo que recebereis do Senhor a recompensa da herança” (Colossenses 3:23-24, Bíblia King James Fiel 1611). Efésios 6:7 reforça isso: “Sirvam de boa vontade, como se estivessem servindo ao Senhor, e não aos homens” (Bíblia King James Fiel 1611). Isso não significa aceitar calado uma situação ruim, mas mudou onde eu buscava meu propósito: não só no reconhecimento da empresa, e sim em fazer com excelência o que estava nas minhas mãos, “em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Colossenses 3:17, Bíblia King James Fiel 1611).

Preciso ser honesto: foi o período em que eu mais pequei, mais murmurei, mais me irei. Isso mudou como eu lidava com a murmuração: “Façam todas as coisas sem murmurações nem contendas, para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis” (Filipenses 2:14-15, Bíblia King James Fiel 1611). E 1 Tessalonicenses 5:18 vai além: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (Bíblia King James Fiel 1611). Não foi fácil ficar grato num período de estagnação, mas trocar a reclamação por gratidão fez diferença real, mesmo antes da situação em si mudar. E há um provérbio que resume o outro lado disso: “Em todo trabalho há proveito, mas ficar só em palavras conduz à pobreza” (Provérbios 14:23, Bíblia King James Fiel 1611). De nada adiantava só reclamar da estagnação. Era hora de agir.

A segunda coisa foi a terapia me ajudar a simplesmente nomear o problema. Antes disso, eu sabia que algo estava errado, mas não sabia dizer o quê, só sabia que não era “estou com preguiça” nem “estou desmotivado à toa”. Ter um nome pra aquilo (boreout) já tirou um peso.

A terceira foi olhar pro problema de outro ângulo. Em algum momento ficou claro pra mim que talvez meu perfil estivesse migrando: de alguém puramente técnico pra alguém que também gosta de lidar com pessoas. Mentoria, ajudar time, delegar. Não como fuga do técnico, mas como um desafio novo que eu não estava reconhecendo como desafio.

Isso mudou hábito de verdade:

  • Comecei a delegar mais, em vez de resolver tudo sozinho.
  • Passei a mentorar pessoas ativamente, o que virou uma fonte de desafio que eu não tinha antes.
  • Passei a orar e pedir direção ao Senhor sobre os próximos passos da minha carreira, o que trouxe uma paz que eu não tinha antes de entender o que estava sentindo.
  • Um amigo falou pra fazer caminhada… e acredite… ajuda demais. Até meu dog está junto nessa

A reflexão que fica

Eu sempre conversei com alguns amigos sobre identificar sinais de burnout: sobrecarga, prazo impossível, gente trabalhando fim de semana. Mas boreout quase nunca aparece no radar de quem lidera, e tem motivo pra isso.

Primeiro, porque a métrica pra maioria dos gestores costuma ser entrega: se o trabalho sai, sai no prazo e ninguém reclama, do ponto de vista da liderança está tudo certo.

Segundo, porque quem está com boreout não gera ruído nenhum: não atrasa, não pede ajuda, não entra em atrito, então não acende alerta nenhum.

Terceiro, porque perceber que falta desafio proporcional à capacidade de alguém exige um olhar próximo do trabalho técnico do dia a dia, e boa parte da liderança já não tem mais esse contato tão de perto.

O resultado: gente capaz, entediada, estagnada, entregando abaixo do potencial, e ninguém percebe, porque não existe sintoma óbvio de fora pra isso.

Justamente por isso, quem é dono da própria carreira, e da própria saúde, é você mesmo, e não a empresa. Esperar que alguém de fora note o que você está sentindo, e resolva por você, é entregar pra outra pessoa uma responsabilidade que é sua.

Preste atenção em você: está sempre resolvendo os mesmos problemas? Sempre disponível, nunca reclamando, mas sentindo que não está crescendo? Às vezes essa calma não é sinal de que está tudo bem. Às vezes é boreout se instalando.

Não é frescura, não é falta de gratidão pelo emprego estável. É um problema real, e vale a pena procurar ajuda pra entender de onde ele vem. No meu caso, foi a combinação de fé e terapia que fez essa diferença.

Tags: boreout burnout carreira saúde mental terapia